Em tempos de mudanças climáticas cada vez mais visíveis e urgentes, o debate sobre as emissões de gases do efeito estufa raramente começa pela comida, mas deveria. Segundo a FAO (2021) os sistemas alimentares globais [...]
ESCRITO POR COMIDA DO AMANHÃ
em 30/06/2025
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Em tempos de mudanças climáticas cada vez mais visíveis e urgentes, o debate sobre as emissões de gases do efeito estufa raramente começa pela comida, mas deveria. Segundo a FAO (2021) os sistemas alimentares globais já respondem por um terço das emissões de gases de efeito estufa, um peso que não se mede apenas no desmatamento, mas também nas perdas pós-colheita, no desperdício e na distância percorrida entre produção e consumo. Nesta linha, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em seu relatório especial Climate Change and Land (2019), consolida dados fundamentais sobre os sistemas alimentares e de uso da terra (AFOLU, na sigla em inglês), estimando que, quando consideradas as emissões associadas às etapas pré e pós-produção, o sistema alimentar global é responsável por 21% a 37% das emissões líquidas antrópicas de gases de efeito estufa. Ainda segundo este relatório, desde 1961, o crescimento populacional e o aumento do consumo per capita de alimentos, fibras e energia têm levado a taxas inéditas de uso de terras e águas, com a agricultura respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce. Já no Brasil, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) estas emissões superam a média global e correspondem por mais de 73% das emissões de gases do efeito estufa em 2021.
Apesar deste cenário, há uma luz no fim do túnel: nas cozinhas comunitárias, nos pomares urbanos, nas feiras de agricultores familiares, e muitos outros espaços pulsa uma agenda climática silenciosa mas poderosa. É neste compasso que o Laboratório Urbano de Políticas Públicas Alimentares (LUPPA) tem inspirado uma rede de municípios brasileiros a colocar a comida no centro das soluções para um futuro mais resiliente das cidades.
O LUPPA é um programa realizado desde 2021 pelo Instituto Comida do Amanhã, em parceria com o ICLEI América do Sul. Nasce como uma plataforma colaborativa para apoiar e facilitar a construção de políticas alimentares municipais integradas, participativas e com abordagem sistêmica e vem evoluindo como uma verdadeira rede de apoio. Nele, representantes de diversos municípios do Brasil se unem para trabalhar na construção de uma agenda integrada de sistemas alimentares em suas cidades, cobrindo um espectro de políticas que vão do combate à fome ao combate à emergência climática, passando por geração de renda, garantia de direitos, educação alimentar, regulação de ambientes alimentares saudáveis e desenvolvimento regional, além de outros tantos temas afetos às políticas alimentares.
O trabalho realizado no LUPPA tem recebido reconhecimento internacional, seja pelo seu aspecto de metodologia inovadora, seja por sua capacidade de gerar uma rede de suporte entre as cidades. No relatório “State of Food Insecurity in the World 2023” (FAO et al., 2024) e no relatório “From Plate to Planet” (IPES-FOOD, 2023), o LUPPA é citado como exemplo de laboratório de política pública alimentar urbana inovador com impacto na alavancagem da transformação dos sistemas alimentares. Em 2024, o LUPPA foi destaque como rede nacional de cidades em relatório “Strengthening Urban and Peri-urban Food Systems”, do Painel de Alto Nível de Especialistas em Segurança Alimentar e Nutricional do Comitê Mundial de Segurança Alimentar das Nações Unidas sobre sistemas alimentares urbanos e periurbanos (HLPE, 2024). Além disso, o programa é fonte de inspiração para a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional nas Cidades – Alimenta Cidades – que o Ministério do Desenvolvimento Social, por meio de sua Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, lançou em dezembro de 2023.
Consideramos que é nas ações concretas de cada cidade participante, muitas vezes pequenas em escala, mas grandes em impacto que vemos a força da transformação acontecer. Em Santarém (PA), por exemplo, a introdução sistemática de produtos da sociobiodiversidade na alimentação escolar vai além do cardápio: fortalece economias extrativistas, protege territórios florestais e reduz emissões ao encurtar os caminhos entre o campo e o prato. Uma política pública que costura nutrição, justiça social e conservação ambiental com um único ponto de interseção: a alimentação escolar.
No Sudeste, a cidade de Maricá (RJ) se tornou referência nacional e internacional ao implantar seus jardins comestíveis, conhecidos localmente como Praças Agroecológicas. Esses espaços públicos, transformaram-se em territórios de aprendizado, cultivo e convivência comunitária. Na maior delas, em Itaipuaçu, são mais de 60 culturas distribuídas em 36 canteiros, onde hortaliças, frutas, plantas alimentícias não convencionais (PANCs) e medicinais são cultivadas coletivamente. Mais que hortas urbanas, as praças agroecológicas ensinam a comunidade a plantar e a valorizar o trabalho do agricultor, promovem segurança alimentar e nutricional, fortalecem práticas de compostagem e reduzem o desperdício. Desde a criação do primeiro jardim, em 2020, Maricá aderiu ao Pacto de Milão, consolidando-se como exemplo de cidade comprometida com sistemas alimentares sustentáveis e circulares.
Outro interessante destaque é o caso dos bancos de sementes crioulas, presentes em diversos municípios participantes do LUPPA, como Alenquer (PA), que mantém um banco articulado a outras iniciativas públicas, como o banco de mudas agroecológicas, o mercado municipal e as feiras agroecológicas que fortalecem a comercialização de produtos locais e sustentáveis. Um exemplo também emblemático é Anchieta (SC), referência nacional na execução de políticas públicas de resgate e preservação do patrimônio genético alimentar. O município consolidou-se como um polo de conservação das sementes crioulas, realizando, inclusive, o Festival Gastronômico dos Milhos Crioulos. Essas estruturas garantem a preservação de sementes crioulas, variedades adaptadas às realidades locais, cuidadas com esmero por agricultores familiares, que promovem autonomia produtiva, resistem às mudanças do clima e perpetuam saberes ancestrais sobre o cultivo da vida.
Essas experiências se somam a um quadro mais amplo descrito no relatório Diálogo União Europeia – Brasil sobre Sistemas Alimentares Urbanos Sustentáveis, que analisou as ações de cidades como Santarém, Maricá, Recife, Curitiba e Rio Branco. A publicação destaca que os sistemas alimentares urbanos circulares representam uma oportunidade concreta para substituir o modelo linear de produção, consumo e descarte, promovendo práticas como compostagem, gastronomia social, hortas urbanas, conexão entre zonas rurais e urbanas e fortalecimento de compras públicas sustentáveis. Essas estratégias não apenas enfrentam os desafios da insegurança alimentar e da má nutrição, como também contribuem com soluções locais frente às mudanças climáticas. As cidades, segundo o relatório, podem ser verdadeiros epicentros de transformação, articulando políticas intersetoriais e envolvendo múltiplos atores para impulsionar sistemas alimentares mais justos, saudáveis e resilientes.
Nesse cenário, o LUPPA mostra que os caminhos da transformação podem, e devem, passar pelas cidades. Políticas como hortas urbanas, compostagem descentralizada, compras institucionais da agricultura familiar e incentivo à economia solidária podem parecer pequenas frentes de ação. Mas, em conjunto, elas formam uma malha de resistência e inovação que reposiciona as cidades como protagonistas de um pacto necessário entre comida, clima e justiça social.
Para além de pensar no alimento como um direito humano e constitucional, trata-se de entender a alimentação enquanto estratégia mais ampla: para resiliência urbana, para mitigação climática, para reconstruir laços entre pessoas e territórios. Ao colocar o sistema alimentar como eixo das políticas públicas locais, as cidades apontam um horizonte possível, e urgente, de transformação.









