O retrato da fome revelado pelo II Inquérito sobre Insegurança Alimentar no Brasil

Apresentada no dia 08 de junho de 2022, a pesquisa realizada pela Rede PENSSAN resultou no II VIGISAN, um Inquérito Nacional sobre insegurança alimentar no contexto da COVID-19 no Brasil. Em 2014, o Brasil conseguiu [...]

ESCRITO POR COMIDA DO AMANHÃ

em 01/07/2022

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Apresentada no dia 08 de junho de 2022, a pesquisa realizada pela Rede PENSSAN resultou no II VIGISAN, um Inquérito Nacional sobre insegurança alimentar no contexto da COVID-19 no Brasil. Em 2014, o Brasil conseguiu sair do mapa da fome da ONU, como resultado de ações governamentais e da sociedade civil voltadas para o monitoramento e a garantia da segurança e soberania alimentar, transferência de renda, produção de alimentos, entre outras. Infelizmente, essas iniciativas não se consolidaram como políticas de Estado. Dois anos após atingir esse importante marco internacional, o flagelo da fome voltou a assombrar o país.

Há cerca de 30 anos, a comoção e a solidariedade diante do grave cenário de fome no Brasil ganharam muita visibilidade na sociedade e na mídia, a partir da divulgação dos dados e das campanhas feitas pelo sociólogo Betinho, que cunhou a frase: “Quem tem fome, tem pressa”. A pesquisa que embasou o II VIGISAN demonstra que o cenário atual de insegurança alimentar grave remonta 30 anos, com 33 milhões de pessoas neste patamar. A somatória da crise sanitária com a pandemia da COVID-19, crise econômica com o aumento dos preços dos alimentos e desemprego, crise ambiental com aumento da insegurança hídrica e mudanças climáticas, crise social e política com ausência ou ineficiência das ações do estado direcionadas à SAN, levou a retrocessos poucas vezes vistos na história do país.

Os dados do II VIGISAN demonstram que a fome tem endereço, tem cor e tem gênero, e que as pessoas com menor grau de escolaridade também estão entre as mais afetadas. Quando comparados ao estudo anunciado pelo I VIGISAN de 2021, constata-se um agravamento alarmante em pouco mais de um ano. A pesquisa foi feita em todos os estados e nas cinco regiões do país, utilizando a escala brasileira de insegurança alimentar (EBIA) através de um questionário com oito perguntas e de entrevistas presenciais em 12.745 domicílios. Destes, um percentual de 41,3% afirmou ter a segurança alimentar preservada, ao passo que 28% encontrava-se em situação de insegurança alimentar leve, quando a qualidade e o acesso suficiente aos alimentos estão comprometidos. Dos demais domicílios entrevistados, cerca de 30,1% vivem em situação de insegurança alimentar moderada e grave, quando o acesso aos alimentos é restrito e quando a fome se instala, este último ficando num percentual de 15,5%.

O Brasil possui 58% de seus domicílios convivendo com algum grau de IA, o que significa 125,2 milhões de pessoas. Destas, cerca de 33 milhões padecem de fome. Este índice mais grave é encontrado com maior incidência nos domicílios rurais, o que pode ser explicado pela constatação de que a IA grave e a insegurança hídrica estão intimamente relacionadas, já que a falta de água impacta diretamente na produção de alimentos no campo.

Mas é na desigualdade regional, de gênero e de raça que o II VIGISAN desvelou o cenário mais impactante. As regiões Norte e Nordeste possuem 25,7% e 21% de sua população, respectivamente, em situação de insegurança alimentar grave, o que contrasta com a média nacional de 15,5% de pessoas convivendo com a fome. Quando os domicílios possuem uma renda per capita de no máximo 25% do salário mínimo, o percentual de IA grave atinge 43%, impactando mais as famílias chefiadas por mulheres ou por pessoas pretas e pardas.

Ao contrário do I VIGISAN, os dados do II VIGISAN foram elaborados considerando um recorte ao nível estadual. Esse aprofundamento na análise permite uma leitura mais detalhada do cenário da insegurança alimentar no Brasil e alimenta a construção de políticas e de pesquisas que considerem as especificidades de cada estado. Os dados estaduais serão disponibilizados a partir do final do mês de Julho pela rede PENSSAN, no entanto, no passado dia 23 de junho, durante o Encontro Nacional contra a Fome, foram anunciados os resultados relativos ao estado do Rio de Janeiro. Os últimos dados com recorte estadual, coletados na Pesquisa do Orçamento Familiar (POF) de 2018, apontavam o estado do Rio com 4,2% da sua população em Insegurança Alimentar Grave, 8,3% com Insegurança Alimentar Moderada, 19,7% em situação de Insegurança Alimentar Leve e um total de 67,8% da população em estado de Segurança Alimentar.

O II VIGISAN apresenta um cenário completamente diferente: 4 anos depois, apenas 42,8% da população do estado do Rio de Janeiro está em estado de Segurança Alimentar (redução de 60% em relação a 2018). 23,5% está em situação de Insegurança Alimentar Leve, 17,8% em Insegurança Alimentar Moderada e a fome passou a atingir 15,9% da população fluminense – quase 3 milhões de habitantes (aumento de 400% desde 2018). O recorte estadual é fundamental para uma incidência de políticas mais próximas da realidade de cada território, e ajuda a entender o mapa da fome com mais detalhe e compreensão.

A contribuição trazida pelo II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Brasil é muito importante e significativa. Cumpre um papel não somente de desenhar um diagnóstico atualizado da situação alimentar, mas também de apontar providências a serem tomadas para que o país consiga deixar este cenário de fome avassaladora no passado, como já fez em tempos recentes.

Para assistir à apresentação do II VIGISAN no Encontro Nacional contra a Fome (junho 2022), acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=XBW3xjf1DKw

Para assistir a apresentação dos dados sobre o estado do Rio de Janeiro da II VIGISAN, acesse o link: https://www.youtube.com/watcPRizSxy1vY

*com a colaboração de Tárzia Medeiros

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