Os sistemas alimentares e a celebração do meio ambiente

Nesta semana comemora-se o dia mundial do meio ambiente e por isso escolhemos escrever um texto para celebrar e contar um pouco mais da enorme gama de conexões e relações entre meio ambiente e sistemas [...]

ESCRITO POR COMIDA DO AMANHÃ

em 07/06/2023

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Nesta semana comemora-se o dia mundial do meio ambiente e por isso escolhemos escrever um texto para celebrar e contar um pouco mais da enorme gama de conexões e relações entre meio ambiente e sistemas alimentares.
Para começar, vale ressaltar a necessidade que a produção de alimentos têm de garantia de provisão de água de qualidade, solos saudáveis e presença de uma diversidade de fauna e flora, com atenção especial para o papel dos insetos.

No entanto, a relação entre sistemas alimentares e meio ambiente é perversa e mútua – estes dependem do meio ambiente saudável para poderem ser resilientes e para que possamos ter uma produção exitosa e colheitas capazes de garantir alimento a todos nós, mas são os maiores responsáveis pelos impactos nefastos à natureza.

Vamos olhar para essa relação a partir de 3 nexus – Água e Comida; Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e Comida e, Biodiversidade e Comida e procurar criar conexões entre eles.

1. Água

A agricultura é grande responsável pelo consumo de água mundial, mas também responsável pela contaminação da mesma devido ao uso indiscriminado de agroquímicos. Como apresentado no texto Conferência sobre a Água da ONU: a crise hídrica no centro do debate internacional “o aumento da poluição das reservas de água doce, aliado ao avanço da desertificação e ao desaparecimento de ecossistemas provedores de fontes potáveis, são alguns dos impactos que a escassez hídrica provoca na produção de alimentos e na segurança alimentar”.

A escassez hídrica tem como um dos principais fatores um grande problema relacionado ao meio ambiente: o desmatamento. No caso do Brasil, um ótimo caso para exemplificar são os rios voadores. Esta é uma expressão usada para designar as massas de ar carregadas de vapor de água, ou seja, umidade, proveniente da evapotranspiração dos rios e que são empurradas pelos ventos desde a Bacia Amazônica para o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil. Com o desmatamento de extensas áreas de terra na região Amazônica a consequência é a redução do volume de umidade chegando ao Brasil Central, provocando e acentuando crises hídricas e de energia.

O caso das experiências de convivência com o semiárido protagonizadas pela Articulação Semiárido Brasileiro – ASA Brasil é um exemplo de como as comunidades criam alternativas para mitigar ou driblar a crise hídrica: programas de captação e armazenamento de água das chuvas, além das tecnologias sociais de reúso das águas cinzas utilizadas na produção de alimentos. Nestes casos, a preservação dos recursos hídricos é tratada como indispensável para a manutenção da produção de alimentos.

Ainda quando pensamos no tema água é importante mencionar que os estoques pesqueiros e a qualidade dos peixes é amplamente afetado tanto pela poluição das águas quanto pela pesca predatória, provocando um desequilíbrio em todo o ecossistema marinho. Vale lembrar que o impacto do aumento da temperatura global por conta das mudanças climáticas acaba por afetar o equilíbrio dos rios e oceanos, comprometendo a disponibilidade e a diversidade de alimentos provenientes das águas.

2. Gases Efeito Estufa

O impacto dos sistemas alimentares nas mudanças climáticas e suas consequências para o meio ambiente também são relevantes quando consideramos os cenários de emissões de GEE globais. De acordo com Relatório Síntese do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC lançado em 2023, 22% dos Gases de Efeito Estufa (GEE) globais estavam relacionados com as atividades de agricultura, silvicultura e outros usos da terra em 2019. No caso do Brasil os números são ainda mais alarmantes, dados do Observatório do Clima apontam que em 2021 a atividade agropecuária em sentido amplo respondia por 74% de toda a emissão de GEE, sendo 49% proveniente da mudança de uso da terra e floresta, que está em geral atrelada ao desmatamento.

Outro ponto importante de conexão entre emissões de GEE e comida é o fato de que o aumento de temperatura e a ocorrência de eventos climáticos extremos decorrentes das mudanças climáticas afetam diretamente a produção mundial de alimentos.

Assim, dentre as alternativas para encarar os fatos incluem-se as práticas agrícolas de baixo carbono, tais como as produções de base agroecológica. É relevante ressaltar que, como comentamos, uma das maiores contribuições de emissões de GEE no Brasil é o desmatamento, – ou seja, modos de produção desmatamento zero são formas de combater as emissões de GEE no sistema.

3. Biodiversidade

No que concerne à biodiversidade podemos relatar a importância da conservação como elemento fundamental para garantir a segurança alimentar e nutricional com diversidade de alimentos e preservação das culturas locais a eles vinculadas.

De acordo com o relatório The State of the World’s Biodiversity for Food and Agriculture, publicado em 2019 pela FAO, das 6.000 espécies diferentes de plantas usadas como alimento, apenas nove (cana-de-açúcar, trigo, arroz, milho, batata, beterraba sacarina, mandioca, dendê e soja) contribuem com 66% da produção agrícola total. A produção pecuária está concentrada principalmente em oito espécies (porco, frango, gado, ovelha, cabra, peru, pato e búfalo), sendo responsáveis por 97% da produção global de carne. O relatório também destaca que as espécies de alimentos silvestres e muitas espécies que contribuem para os serviços ecossistêmicos vitais para a alimentação e a agricultura, incluindo polinizadores, organismos do solo e inimigos naturais de doenças agrícolas, estão desaparecendo rapidamente.

No caso da Mata Atlântica, por exemplo, o bioma é responsável pela produção de 50% do que nos alimentamos hoje no Brasil. Mas, além disso, podemos destacar a diversidade de alimentos existentes no mundo e as diferentes culturas alimentares. A monotonia alimentar e o consumo de apenas alguns tipos de espécies e produtos acaba por encolher o enorme patrimônio genético disponível no mundo e leva à extinção de alguns alimentos, além dos saberes e as técnicas atreladas a eles.

Podemos considerar as sementes crioulas como verdadeiros patrimônios genéticos e alimentares. Estas são sementes que as comunidades selecionam, guardam e compartilham com o intuito de tornarem-se cada vez mais adaptadas aos seus locais de origem e consequentemente estimularem a preservação da agrobiodiversidade e da cultura alimentar de cada território. Já o Slow Food criou a Arca do Gosto, um catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga alimentos especiais ameaçados de extinção. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO desenvolveu o Programa Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM) e tem como objetivo o reconhecimento de patrimônios agroalimentares a nível global, reverberando sua importância para a segurança alimentar e nutricional, para a conservação e promoção da agrobiodiversidade e para a diversidade sociocultural. O Brasil recebeu a distinção com o Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço, no estado de Minas Gerais. Por isso, conservar e preservar as diferentes formas de cultura alimentar é também cuidar do meio ambiente.

Assim percebemos que a relação dos sistemas alimentares com o meio ambiente é complexa e abrange diferentes aspectos. Neste contexto, a preservação do meio ambiente é essencial, do contrário teremos cidades ainda mais quentes, eventos extremos mais frequentes em decorrência das mudanças climáticas, além do impacto no fornecimento de água, na polinização, na agrobiodiversidade e afinal em nossa própria alimentação.

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