A celebração da alimentação afro

Nesta semana em que celebramos o dia da Consciência Negra, é importante refletirmos para nos relembrarmos da influência afro nos sistemas alimentares e principalmente na cultura alimentar do Brasil. Por isso, o Comida do Amanhã [...]

ESCRITO POR COMIDA DO AMANHÃ

em 20/11/2023

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Nesta semana em que celebramos o dia da Consciência Negra, é importante refletirmos para nos relembrarmos da influência afro nos sistemas alimentares e principalmente na cultura alimentar do Brasil. Por isso, o Comida do Amanhã decidiu escrever este texto enquanto uma forma de celebrar e também de valorizar as tantas culturas de matriz africana que se fazem presentes até hoje no dia a dia de nosso país e na cultura afro-brasileira. Quem não se lembra do cheiro de um acarajé preparado por uma baiana de acarajé, ou do caruru e do vatapá espalhado pelas ruas de todo o Brasil…?
Mas, antes de adentrarmos neste âmbito cultural, gostaríamos de lembrar que as questões de raça têm cada vez mais sido foco de pesquisas relacionadas à alimentação e segurança alimentar e nutricional (SAN) no Brasil. Os dados mais recentes de análise da SAN com os recortes de raça e também de gênero, como o Suplemento II Insegurança Alimentar e desigualdades de raça/cor da pele e gênero do 2º Inquérito Nacional sobre insegurança alimentar no contexto da COVID-19 no Brasil – II VIGISAN, e a publicação Prato do Dia: Desigualdades. Raça, Gênero e Classe Social nos Sistemas Alimentares da FIAN Brasil, nos alertam para uma realidade bastante desigual: as famílias chefiadas por pessoas negras (pessoas autodeclaradas de cor parda ou preta) – independentemente do gênero, e por mulheres – independentemente da cor, são aquelas que mais convivem com a insegurança alimentar no Brasil, incluindo sua forma mais grave, a fome.

Apesar de todos os desafios e desigualdades que a população negra encontra quando o tema é alimentação, é também na resistência que se fortalecem, perpetuam e valorizam a cultura alimentar de matriz africana. A agricultura urbana tem sido uma aliada nesta jornada: em Salvador, cidade mentora da 2a Edição do Laboratório Urbano de Políticas Alimentares (LUPPA), desde 2019 estão sendo implantadas as chamadas Hortas Sagradas. Tratam-se de hortas localizadas dentro de terreiros com o intuito de atender às comunidades e povos de terreiro com plantas e ervas comumente utilizadas nos cultos e rituais das religiões de matriz africana. As hortas são desenvolvidas pela Prefeitura de Salvador, fruto da parceria entre as secretarias municipais de Sustentabilidade e Resiliência (Secis) e da Reparação (Semur).

São também os povos e comunidades de terreiro que celebram sua cultura e religião por meio dos alimentos consumidos durante os rituais religiosos. Nestes casos, os alimentos e as formas de consumi-los desempenham um papel central nas religiões afro-brasileiras, com dimensões sagradas e profanas nos terreiros de candomblé, ou Ilês. Desde o rezar, até o comer de forma compartilhada, tudo é considerado sagrado e a alimentação tem caráter não só de alimentar o corpo, ela é pura simbologia e cria as relações entre as pessoas, os objetos e os Orixás.

A “comida de Santo” ou “Comida de Orixá”, é o resultado de rituais de preparação que transforma o ordinário em sagrado, unindo o cotidiano à espiritualidade. Os Orixás africanos ensinam que a comida não apenas sacia a fome imediata, mas também estabelece comunicação com as divindades, nutrindo o sagrado. Nos terreiros, a cozinha é considerada um lugar especial, repleto de afetos e saberes, representando a resistência contra as violências históricas e coloniais, e onde nenhum alimento é desperdiçado. Solange Borges, chef à frente do projeto ‘Culinária de Terreiro’ que busca preservar a cultura de terreiro, explica, em entrevista concedida ao Brasil de Fato que “No candomblé a cozinha é o útero do terreiro”. Quando uma pessoa ou família inteira se alimenta, a ancestralidade é honrada. A prática alimentar, expressa pela palavra iorubá “Ajeun” (“comer junto”), conecta alimentos às forças naturais e sociais. A comida, ervas e a fala têm centralidade nas tradições africanas no Brasil e simbolizam uma troca significativa entre o humano e o divino.Por isso, os terreiros desempenham um papel importantíssimo na preservação e manutenção de valores culturais das tradições africanas e são espaço de resistência contra os desafios ainda intrínsecos na sociedade brasileira.

A cultura afro também pode ser encontrada dentro dos quilombos espalhados por todos os 147 Territórios Quilombolas oficialmente delimitados titulados no Brasil. O Comida do Amanhã publicará em breve um estudo desenvolvido em parceria com a FAO e a prefeitura do Rio de Janeiro. Este estudo surge no momento em que a FAO, juntamente com parceiros, está implementando vários projetos para apoiar as cidades e os governos locais na integração dos sistemas alimentares nas políticas, planeamento e ações locais. No contexto do Brasil, a FAO, em parceria com o Comida do Amanhã, desenvolveu um estudo sobre governança e planejamento dos sistemas alimentares urbanos na cidade do Rio de Janeiro, aproveitando a oportunidade que o Município do Rio de Janeiro estava no processo de desenvolver a sua primeira estratégia alimentar urbana (Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional – Plano de SAN).

A partir de uma consulta feita junto à Câmara intersetorial de segurança alimentar e nutricional do município do Rio de Janeiro (CAISAN), foi decidido que o estudo focaria nos desafios em segurança alimentar e nutricional enfrentados pelas comunidades tradicionais de matriz africana, com foco nas comunidades quilombolas do município.

A fim de fortalecer a capacidade do município de promover um sistema alimentar urbano mais sustentável ​​e inclusivo, o “Estudo e Avaliação da Governança do Sistema Alimentar Local do Rio de Janeiro e do estado da Estratégia de Política Alimentar Municipal (“​Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional”), é assim complementado com o Estudo específico sobre​ Comunidades Tradicionais Quilombolas do Rio de Janeiro, que busca contribuir para a avaliação da governança dos sistemas alimentares urbanos no município, avaliar as principais lacunas e desafios e identificar os principais pontos de entrada e estratégias para enfrentá-los, a partir de uma perspectiva de sistemas alimentares urbanos inclusivos.

Encerramos este texto de forma saborosa – falando, não surpreendentemente, de comida: no livro “Isto Não é (apenas) um Livro de Receitas: é um Jeito de Mudar o Mundo” produzido pelo Comida do Amanhã em parceria com a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e a Fundação Heinrich Böll – Brasil, no capítulo que tem como tema “Os Camponeses e Camponesas do Brasil fazem muito com pouco”, apresentamos a receita de Frango com ora-pro-nóbis, proveniente da Casa Quilombê, um projeto realizado na comunidade quilombola de Marinhos, localizada no município de Brumadinho- MG, com a missão de intercâmbio cultural, educação social e valorização das tradições quilombolas. Aqui vai a receita, aproveite e delicie:

Receita:

rendimento 6 porções

tempo de preparo 1 hora

nível de dificuldade fácil

sugestões de acompanhamento sirva com angu, de preferência feito com fubá de moinho d’água, arroz branco e feijão

INGREDIENTES

• 2 kg de frango

• 10 dentes de alho

• sal a gosto

• óleo

• prato cheio de ora-pro-nóbis

• outros temperos a gosto

MODO DE PREPARO

Dourar com um fio de óleo o frango em pedaços. Assim que começar a chiar, acrescentar o alho com sal. Adicionar água e deixar ferver quando o frango estiver dourado. Verificar com um garfo se o frango já está cozido e acrescentar ora-pro nobis picado em pedaços largos. Caso tenha pouco caldo, acrescentar mais um pouco de água e deixar cozinhar por mais alguns minutos.

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