Dia Mundial da Alimentação: um chamado coletivo para transformação dos sistemas agroalimentares

No momento em que, simultaneamente, um décimo da população do mundo não tem o que comer, 1/3 dos alimentos produzidos no planeta são desperdiçados e 1,9 bilhões de pessoas estão obesas ou com sobrepeso, é [...]

ESCRITO POR COMIDA DO AMANHÃ

em 16/10/2021

|

176

No momento em que, simultaneamente, um décimo da população do mundo não tem o que comer, 1/3 dos alimentos produzidos no planeta são desperdiçados e 1,9 bilhões de pessoas estão obesas ou com sobrepeso, é urgente a cooperação global para mudar o rumo do sistema atual em direção a um futuro com mais acesso à alimentação adequada para todos.

Uma doença desconhecida e altamente contagiosa se espalha em poucos meses do continente asiático para os demais territórios do planeta. Assim, desde o início de 2020, o mundo vivencia a pandemia de COVID-19 e seus desafios sociais e econômicos. Nesse cenário, cientistas, empresários, políticos e sociedade civil, em um movimento de cooperação, se juntam em busca de soluções para a crise de saúde pública que globalmente se instaura. Espontaneamente, são organizadas forças-tarefas para arrecadação de doações, produção de insumos para atender a demandas de prevenção e tratamento, aumento de infraestrutura hospitalar, campanhas de sensibilização, políticas públicas emergenciais e aceleração da pesquisa, fabricação e distribuição de uma vacina eficaz.

É poderosa a capacidade de mobilização em situações de emergência e, apesar da pandemia de COVID-19 ainda não ter data para acabar, a mesma atitude de coletividade se faz necessária para o enfrentamento de outra situação urgente de enfermidade no mundo, essa já conhecida por muitas populações, porém intensificada pelos impactos socioeconômicos da crise pandêmica: a fome. Segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (SOFI, FAO, 2021), um décimo da população global – até 811 milhões de pessoas – foi assolada pela fome em 2020.

No Brasil, de acordo com dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan), mais da metade da população – 116,8 milhões – conviveu com algum nível de insegurança alimentar no fim do ano passado. Em contrapartida, o agronegócio cresceu e teve um aumento recorde de 24,31% no PIB do setor, percentual calculado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

E como isso é possível?

Há vários contextos para considerar, como a priorização das monoculturas e os subsídios públicos para exportação de commodities, o que leva ao lucro do agronegócio, mas não necessariamente a um alimento nutritivo para a população. Monoculturas como soja, milho e cana-de-açúcar são majoritariamente destinadas como matérias-primas para produtos, como óleos e açúcares ou, ainda, ração animal ou biocombustível. Ou seja, muita produção agrícola, mas pouca comida nutritiva.

A fome não é uma doença propriamente dita, mas é determinante em diversas patologias consequentes da desnutrição, como anemia, raquitismo, entre outros, e, em última consequência, o óbito. Uma das aparentes contradições é que, ao mesmo tempo em que milhões de pessoas não têm o que comer, cerca de 2 bilhões estão obesas ou com sobrepeso, principalmente devido a uma dieta pobre em nutrientes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que também se enquadra em um perfil de insegurança alimentar – alto consumo de alimentos ou produtos com alta densidade calórica e pouco valor nutricional.

Outra incoerência é a perda e desperdício de 1/3 dos alimentos produzidos para consumo humano, aproximadamente 1,3 bilhões de toneladas anualmente escoadas na cadeia de produção e distribuição, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, 2011). Um relatório publicado este ano pelo Programa das Nações Unidas do Meio Ambiente (UNEP) estima que 17% dos alimentos são desperdiçados no final da jornada do alimento, ou seja, entre varejo, serviços de alimentação e uso nos domicílios. Em uma avaliação total, cerca de 10% da emissão de gases de efeito estufa são provenientes dessa comida perdida ou desperdiçada (FAO, 2021b). Todo um sistema de produção de alimentos que são perdidos, provocando impactos planetários.

O fato é que em qualquer contexto se faz urgente uma ação para promover acesso a uma alimentação adequada para todas as pessoas por meio da transformação dos sistemas agroalimentares mundiais, o que está alinhado diretamente ao segundo dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU): Fome Zero e Agricultura Sustentável. Temos poucos anos até 2030 para cumprir as metas estabelecidas para o tema na Agenda 2030, como acabar com a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os pobres e pessoas em situações vulneráveis, incluindo crianças, a alimentos seguros, nutritivos e suficientes durante todo o ano (2.1) e garantir sistemas sustentáveis de produção de alimentos e implementar práticas agrícolas resilientes, que aumentem a produtividade e a produção, que ajudem a manter os ecossistemas, que fortaleçam a capacidade de adaptação às mudanças climáticas, às condições meteorológicas extremas, secas, inundações e outros desastres, e que melhorem progressivamente a qualidade da terra e do solo (2.4).

É por isso que no Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, a FAO faz o chamado a governos, setor privado e sociedade civil, para atuação conjunta no desafio de construir sistemas agroalimentares mais eficientes. Com o tema Nossas Ações são Nosso Futuro, a proposta para 2021 é promover melhor produção, melhor nutrição, melhor meio ambiente e melhor vida.

Os sistemas agroalimentares são constituídos por todo o percurso do alimento desde a sua produção até ao seu descarte final –- seja um cereal, vegetal, fruta ou alimentos de origem animal. Isso inclui cultivo, colheita, processamento, embalagem, transporte, distribuição, comercialização, compra, preparo, consumo e descarte. Podem ser incorporados nesse fluxo também os produtos não comestíveis, como a madeira da silvicultura e a biomassa dos biocombustíveis, que consistem em meios de subsistência, bem como todas as pessoas envolvidas em toda a cadeia agroalimentar. Todo esse mecanismo precisa ser repensado propondo mudanças incorporadas com foco em sustentabilidade e acesso à comida de qualidade. E essa ação não pode ser individual – todos fazemos parte dos sistemas agroalimentares, uma vez que aquilo que escolhemos comer, quando temos pleno gozo desse direito, afeta nossa saúde e a do nosso planeta.

É imperativa uma ação coletiva para transformação dos sistemas agroalimentares. Entre setembro e outubro deste ano, eventos globais, como Food Systems Summit e World Food Forum, reuniram representantes de organismos mundiais, governos, pesquisadores, empreendedores sociais, produtores familiares e jovens protagonistas em projetos em suas comunidades para dialogarem sobre os passos a serem dados nessa direção. Em âmbito nacional, o projeto Luppa – Laboratório Urbano de Políticas Públicas Alimentares, realizado pelo Instituto Comida do Amanhã em parceria com o ICLEI, é um exemplo de ação propositiva, convidando cidades brasileiras para o centro da discussão sobre o direito à alimentação por meio de uma plataforma colaborativa, estimulando políticas locais que atentem e considerem desafios globais em um enquadramento territorial e, assim, possam transitar para sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

O diálogo necessário deve ser contínuo e promovido em todos os territórios e esferas de atuação, já que as realidades são diversas ao redor do mundo, assim como as demandas e os recursos.

Podemos até encontrar divergências nas soluções propostas, mas é consensual de que a mudança é fundamental e que exige envolvimento dos diversos atores, com urgência, para que o futuro dos sistemas agroalimentares possa garantir o atendimento às necessidades específicas de segurança e soberania alimentar – combatendo a fome, promovendo saúde, protegendo o meio ambiente, diminuindo o desperdício, minimizando as mudanças climáticas e regenerando a biodiversidade – dentro de uma perspectiva de direitos e de sustentabilidade.

Na campanha do Dia Mundial da Alimentação, a FAO dá direções para que, individualmente e coletivamente, todos se integrem na transformação dos sistemas agroalimentares, sendo corresponsáveis dessa transformação:

_países ajudarem os pequenos agricultores a melhorar os seus meios de subsistência, aumentando o acesso à formação, ao financiamento, às tecnologias digitais, aos serviços de extensão e à proteção social;
_agricultores participarem de organizações de agricultores, cooperativas ou escolas de campo e aprenderem sobre nutrição, biodiversidade, tecnologias digitais e técnicas agrícolas;
_setor privado limitar os níveis de gorduras saturadas e trans, açúcares e sal nos produtos e garantir uma rotulagem clara, melhorando ao mesmo tempo a segurança e a qualidade dos alimentos;
_pesquisadores gerarem conhecimento fundamentado em dados concretos para demonstrar estratégias de combate às alterações climáticas no âmbito de sistemas alimentares sustentáveis e partilhá-lo com os governos;
_sociedade civil mobilizar o apoio para a mudança, lançando campanhas e defendendo escolhas alimentares saudáveis e sustentáveis e dando voz aos atores mais vulneráveis da cadeia agroalimentar como indígenas, jovens, mulheres e os pequenos agricultores;
_pessoas, individualmente, consumir alimentos nutritivos e variados, acrescentar à alimentação proteínas de origem vegetal, e ser defensoras de sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis para todos, capilarizando o tema em suas comunidades.

Por isso mesmo, e no contexto do Dia Mundial da Alimentação, deixamos algumas dicas:

acesse aqui a brochura com a lista completa de ações recomendadas, além de mais informações da campanha da FAO;

faça o download do caderno de atividades Nossas Ações são Nosso Futuro que ensina de forma lúdica a importância dos sistemas alimentares, quem produz os alimentos e de onde provêm, sendo um material ideal para crianças e adolescentes que serão os responsáveis pela continuidade e sustentabilidade desse movimento no futuro;

celebre o Dia Mundial da Alimentação se alimentando de frutas e vegetais locais, ou resgate aquela receita de sua infância, que faça parte da cultura alimentar da sua região;

faça parte de redes de comercialização locais apoiando circuitos curtos de produção;

busque movimentos e ações de combate à insegurança alimentar na sua região e faça parte desse movimento transformador dos sistemas alimentares!

Palavras-chave: #DiaMundialDaAlimentação #WorldFoodDay #HeróisDaAlimentação #FoodHeroes #Fome #Hunger #SistemasAgroalimentares #AgroFoodSystems

Fontes:
FAO. 2011. Global Food Losses and Food Waste – extent, causes and prevention. Disponível em: http://www.fao.org/3/i2697e/i2697e.pdf
ONU. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): https://brasil.un.org/pt-br/sdgs
OMS. Obesity and Overweight. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight
Penssan. 2021. Olhe para a Fome. Disponível em: http://olheparaafome.com.br/
Cepea. 2021. PIB do Agronegócio. Disponível em: https://cepea.esalq.usp.br/upload/kceditor/files/sut.pib_dez_2020.9mar2021.pdf
Unep. 2021. Food Waste Index – report 2021. Disponível em: https://www.unep.org/resources/report/unep-food-waste-index-report-2021
FAO. 2021. The State of Food Security and Nutrition in the World 2021 (SOFI). Disponível em: https://data.unicef.org/resources/sofi-2021/
World Food Day: http://www.fao.org/world-food-day/en
FAO, 2021b: Dia Mundial da Alimentação. Nossas ações são o nosso futuro: Melhor produção, melhor nutrição, melhor ambiente e melhor qualidade de vida. https://www.fao.org/3/cb5506pt/cb5506pt.pdf

—–

Patricia Magrini é Jornalista, especialista em Meio Ambiente e Sociedade e técnica em Nutrição e Dietética. Atua na produção de conteúdo nas áreas de desenvolvimento social, meio ambiente, sustentabilidade e alimentação. É interessada pelos ativismos alimentares e pesquisadora independente dos contextos sociais, ambientais, históricos, culturais e espirituais que envolvem o alimento e a alimentação.

Compartilhe!

Para saber mais

Continue se informando com outros artigos relacionados

Não encontramos nenhum conteúdo.

SAIBA MAIS SOBRE AS NOSSAS
ESTRATÉGIAS

ACESSE NOSSOS
TEMAS

SAIBA MAIS SOBRE OS NOSSOS
PROGRAMAS

ASSINE NOSSOS
CONTEÚDOS

ENTRE EM
CONTATO

SAIBA MAIS SOBRE AS NOSSAS
ESTRATÉGIAS

ACESSE NOSSOS
TEMAS

SAIBA MAIS SOBRE OS NOSSOS
PROGRAMAS

ASSINE NOSSOS
CONTEÚDOS

ENTRE EM
CONTATO