Instituto Comida do Amanhã e ICLEI América do Sul] Apresentando o problema Nos últimos anos, as cidades têm sido intensamente afetadas pelos eventos decorrentes da crise climática, no entanto, elas têm um enorme potencial [...]
ESCRITO POR COMIDA DO AMANHÃ
em 26/10/2025
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Instituto Comida do Amanhã e ICLEI América do Sul]
Apresentando o problema
Nos últimos anos, as cidades têm sido intensamente afetadas pelos eventos decorrentes da crise climática, no entanto, elas têm um enorme potencial de serem protagonistas nas respostas – de mitigação e adaptação – à esta crise. Em meio a enchentes que isolam bairros, secas que interrompem colheitas e ondas de calor que ameaçam a saúde pública, governos locais têm buscado caminhos próprios de resistência e cuidado. As potencialidades da alimentação como eixo orientador das estratégias de adaptação climática são evidentes, mas seguem pouco exploradas pelas políticas públicas.
Fato é que a forma como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos está profundamente entrelaçada com a emergência climática. Sistemas alimentares respondem por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a FAO (2021), enquanto no Brasil, a agropecuária e o uso da terra representam ainda mais, sendo as maiores fontes de emissões, de acordo com dados da SEEG. Ao mesmo tempo, os eventos extremos afetam diretamente o preço e a disponibilidade de alimentos frescos nas periferias urbanas, com consequências diretas para a segurança alimentar e nutricional das populações urbanas, especialmente as mais vulneráveis. A alimentação ocupa, portanto, uma posição central no problema, mas deve ser parte central da solução.
Ao investir em estratégias que integrem os sistemas alimentares à agenda climática, como aponta o Guia para Gestores Públicos: Sistemas Alimentares Circulares na América Latina, elaborado pela FAO e ICLEI, abrem-se caminhos para práticas que fomentem a circularidade desses sistemas, priorizando a produção regenerativa, favorecendo a reutilização e o compartilhamento, reduzindo a entrada de recursos e a poluição, além de garantir a recuperação de insumos para usos futuros. Dessa forma, fecha-se ciclos de recursos e criam-se sinergias intersetoriais, por exemplo, com sistemas de água e energia, que fortalecem a resiliência dos territórios.
Além disso, considerando os impactos climáticos relacionados aos sistemas alimentares, a adoção de estratégias circulares pode contribuir também para a redução das emissões de carbono oriundas dos resíduos alimentares, ao mesmo tempo em que favorece o sequestro de carbono e a geração de novas fontes de energia sustentável, como o calor residual ou a digestão anaeróbica dos resíduos orgânicos. Conforme destacado na Estratégia de Mudanças Climáticas da FAO (2022-2031), a bioeconomia circular e sustentável foi identificada como uma área prioritária para transformar os sistemas agroalimentares e torná-los mais sustentáveis e resilientes diante das mudanças climáticas.
A pandemia da Covid-19 e o agravamento dos desastres climáticos demonstraram como os sistemas alimentares estão vulneráveis a choques simultâneos e interligados. O estudo global Lessons learned from city region food systems under multiple shocks and stresses, conduzido pela FAO, CIRAD e RUAF (2024) analisou 11 cidades em diferentes regiões do mundo e revelou que os choques mais severos foram percebidos, de forma mais acentuada, justamente nos estágios de produção e consumo: agricultores perderam cultivos e renda, consumidores enfrentaram inflação alimentar, e cadeias logísticas colapsaram.
Além disso, o estudo acima mencionado é fortalecido pelo argumento do artigo publicado na Nature e intitulado Climate change in your backyard: the role of local governments, que também aponta que respostas nacionais centralizadas muitas vezes falharam em adaptar-se às realidades locais, e que iniciativas locais, como cozinhas comunitárias, hortas urbanas, bancos de alimentos e circuitos curtos de comercialização, se mostraram muito mais eficazes e ágeis frente à emergência, enfatizando a necessidade urgente de os governos locais fortalecerem a resiliência dos sistemas alimentares para enfrentar os desafios de saúde, clima e economia. Aqui no Brasil, o estudo Gases de efeito estufa em cadeias alimentares curtas, médias e longas: uma análise comparativa do food miles de uma cesta de alimentos para o Brasil a partir dos dados do PROHORT/Ceasas conduzido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) mostrou que as cadeias curtas, aquelas que aproximam produção e consumo, emitem significativamente menos CO₂. Isso abre uma janela importante para fortalecer políticas públicas de alimentação e desenvolver estratégias locais mais alinhadas ao enfrentamento da crise climática.
Nesta perspectiva, as cidades que integram políticas de alimentação e clima de forma estratégica estão construindo resiliência sistêmica, ou seja, a capacidade de prevenir, absorver, adaptar e transformar seus sistemas alimentares diante de crises sucessivas. Essa abordagem está em linha com o conceito de City Region Food Systems (CRFS), proposto pela FAO, que valoriza a conexão entre centros urbanos e suas áreas rurais próximas, articulando produção, distribuição e consumo de alimentos com outros setores estratégicos do território, de modo a promover sustentabilidade social, econômica e ambiental.
Ainda segundo o estudo Lessons learned from city region food systems under multiple shocks and stresses, as políticas alimentares devem ser estruturadas com base em cinco capacidades fundamentais para promover a resiliência dos sistemas alimentares. A primeira delas é a prevenção, que envolve medidas como a diversificação de cultivos, o fortalecimento da base produtiva local e a criação de estoques reguladores para garantir o abastecimento em momentos críticos. Em seguida, destaca-se a antecipação, com ações voltadas ao monitoramento climático, à elaboração de protocolos de emergência alimentar e ao planejamento prévio de respostas a riscos previsíveis. A terceira capacidade é a absorção, representada por estruturas como cozinhas que oferecem refeições gratuitas e bancos de alimentos que permitem amortecer os impactos imediatos de crises sobre a população. A adaptação, por sua vez, exige a reconfiguração contínua das políticas públicas, como as compras governamentais adaptadas à sazonalidade, ao contexto local e à diversidade da agricultura familiar, para responder a mudanças graduais nas condições socioambientais. Por fim, a transformação envolve mudanças mais profundas e estruturais, como a transição para modelos agroecológicos, a reforma das infraestruturas de abastecimento e a implementação de novas formas de governança alimentar inclusiva, que reconheçam os saberes locais e promovam justiça climática e territorial.
Os casos específicos das cidades mencionadas
Como destaca o IPES‑Food (2023), cidades e governos regionais estão na vanguarda da ação climática relacionada à alimentação. Segundo o relatório, municípios conseguem reduzir emissões até 35% mais do que países, aplicando medidas como redução de resíduos, incentivo à produção local e promoção de dietas saudáveis. Apesar de parecer difícil viabilizar estas estratégias locais na prática, apresentamos alguns exemplos de municípios brasileiros que já possuem ações e políticas de adaptação climática por meio dos sistemas alimentares.
Primeiramente apresentamos Porto Alegre (RS) enquanto referência na resposta comunitária frente a eventos climáticos extremos. Durante as enchentes de 2024 que deixaram a cidade ilhada por vários dias, cozinhas solidárias atuantes no município, tornaram-se pontos estratégicos de apoio nutricional, logístico e emocional para a população atingida. Uma única unidade chegou a preparar mais de 117 mil refeições em poucas semanas, com insumos oriundos da agricultura familiar e da solidariedade popular. Reconhecendo sua importância, a Prefeitura e o Governo do Estado passaram a integrá-las à política pública por meio da criação dos Pontos Populares de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (PPSSAN), fortalecendo sua infraestrutura e vínculo com a rede de abastecimento local. Durante eventos extremos, a cidade adapta rotas de distribuição de alimentos e reativa estoques descentralizados, garantindo comida de qualidade mesmo em cenários de crise. Estas ações são elaboradas a partir de orientações de documentos, tais como o Emergency Readiness Plan: A Guide for the School Foodservice Operation, da National Food Service Management Institute, que sugere que os serviços de alimentação escolar sejam planejados com antecedência para emergências, por meio de protocolos claros de operação, além de parcerias bem estabelecidas com agências de apoio e organizações locais. A experiência de Porto Alegre evidencia como as cozinhas solidárias podem ser estratégias permanentes de adaptação climática e justiça alimentar urbana.
Já Belo Horizonte (MG) tem uma política de Segurança Alimentar e Nutricional bastante consolidada, com uma perspectiva da agroecologia, que busca integrar hortas urbanas com captação de água da chuva, feiras agroecológicas, além de um sistema de equipamentos públicos que conta com restaurantes populares e bancos de alimentos. O município incluiu o tema das mudanças climáticas em sua Política de Segurança Alimentar e Nutricional, buscando garantir sistemas sustentáveis de produção de alimentos e implementar práticas agrícolas capazes de resistir às mudanças climáticas.
Em outra região do país, vemos outro caso, o município de Recife (PE) aposta na agroecologia urbana e na alimentação escolar com base em produtos frescos, minimamente processados e de origem local. Embora não conte com área rural definida em seu plano diretor, a cidade criou uma Secretaria Executiva de Agricultura Urbana, que coordena políticas voltadas à produção de alimentos em zonas urbanas, inclusive com práticas de captação de água da chuva e reaproveitamento de resíduos orgânicos. Essas ações têm a potencialidade de reduzir emissões associadas ao transporte e ao consumo de ultraprocessados, e assim contribuem para o enfrentamento dos desafios relacionados à gestão hídrica e à vulnerabilidade socioambiental nas periferias urbanas.
Em Santarém (PA), de acordo com estudo publicado pela Sustainable Finance Initiative com apoio do Comida do Amanhã para o caso brasileiro, todas as escolas da rede municipal são atendidas pelo programa de alimentação escolar, e todos os itens frescos e minimamente processados servidos nas refeições vêm da agricultura familiar local. As compras são centralizadas pela Secretaria Municipal de Educação (SEMED), que elabora os cardápios em diálogo com nutricionistas e organiza a logística de abastecimento em três regiões distintas: urbana, planalto (acessível por estrada) e ribeirinha (onde as escolas só podem ser alcançadas por via fluvial). Enquanto os alimentos não perecíveis são adquiridos por meio de licitação pública convencional, os produtos frescos são entregues diretamente pelos agricultores às escolas, fortalecendo o vínculo entre produtores e cozinheiras. Esse modelo, além de dinamizar a economia local e valorizar práticas agroecológicas, contribui para a adaptação climática: ao encurtar cadeias de abastecimento, diversificar a produção, fomentar a produção local, e adequar a logística às características territoriais da Amazônia, reduz vulnerabilidades e assegurar refeições escolares saudáveis e sustentáveis.
Essas experiências mostram que é possível reagir. Mas será que só reagir é suficiente?
Como o planejamento precisa ser menos reativo
Levando em conta os exemplos mencionados anteriormente, vale reforçar que a maior parte das ações adotadas durante os choques recentes foram absortivas e reativas, não necessariamente transformadoras. Ou seja, muitas políticas, como cestas básicas, subsídios e programas emergenciais, serviram para mitigar impactos imediatos, mas não alteraram estruturas de vulnerabilidade e nem impediram que as populações seguissem sofrendo os mesmos impactos na alimentação a partir de eventos que tornam-se recorrentes com as mudanças climáticas. Como observa o relatório: “os sistemas alimentares frequentemente voltam ao funcionamento anterior ao choque, perdendo a oportunidade de promover transformações profundas” (FAO, 2024, p.10).
Além disso, as mudanças climáticas já afetam diretamente quatro dimensões da Segurança Alimentar e Nutricional – disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade – com impactos mais severos nas populações mais pobres e vulneráveis, nas mulheres e nos povos tradicionais, segundo o relatório Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability, do IPCC. O sistema alimentar hegemônico, baseado em monoculturas e ultraprocessados, não apenas favorece a crise climática como prejudica a saúde humana, com a ampliação da dupla carga da má nutrição, aquela que combina a desnutrição com o excesso de peso e doenças crônicas, chamada de sindemia global.
Observa-se, portanto, que ainda há barreiras recorrentes que limitam a transformação dos sistemas alimentares, como a falta de coordenação entre políticas nacionais e locais, a baixa inclusão de atores comunitários nos processos de planejamento, a escassez de financiamento voltado à infraestrutura alimentar e a ausência de indicadores claros para medir a transformação e a resiliência, conforme destacado pelo relatório From Plate to Planet: How local governments are driving action on climate change through food do IPES-Food (2023). Apesar desses desafios, iniciativas coletivas lideradas por comunidades, organizações da sociedade civil e governos locais têm demonstrado maior capacidade de promover mudanças duradouras, especialmente quando articuladas com estratégias de governança participativa e redes intermunicipais.
Para avançar com ações de adaptação que criem soluções duradouras, é necessário construir políticas alimentares com visão sistêmica, integradoras e perspectiva de longo prazo, segundo publicação recente da FAO (2025) intitulada Transforming food and agriculture through a systems approach. Dentre os caminhos possíveis, destacam-se: a revisão dos programas de proteção social alimentar, com foco não apenas na emergência, mas na redução estrutural da vulnerabilidade; o fortalecimento da produção local e da diversificação agroecológica, com investimentos em segurança hídrica para produção de alimentos, extensão rural a criação de infraestrutura alimentar resiliente, como mercados descentralizados, cozinhas públicas, sistemas de compostagem e armazenamento local; e o fortalecimento de governança participativa, com conselhos de política pública permanentes, conselhos de segurança alimentar e mecanismos de monitoramento e transparência.
É justamente nesse horizonte que atua o Laboratório Urbano de Políticas Públicas Alimentares (LUPPA), desenvolvido pelo Instituto Comida do Amanhã em parceria com o ICLEI América do Sul. A iniciativa apoia municípios brasileiros na construção coletiva de políticas alimentares sistêmicas, integradas e baseadas no território, com foco na justiça social, ação climática e saúde pública. Por meio de imersões, seminários, trocas e aprendizados o LUPPA contribui para que cidades transformem suas práticas alimentares em soluções estruturantes, fortalecendo experiências locais e articulando redes entre diferentes setores e escalas de governo.
As políticas alimentares municipais podem não apenas garantir comida no prato, elas cuidam das águas, do solo, da biodiversidade, da memória alimentar, do território e das relações de cuidado. Fortalecer os sistemas alimentares locais é uma das formas mais eficazes de construir resiliência climática com justiça social. Mas isso exige uma mudança de perspectiva: compreender a alimentação como uma agenda estratégica e transversal, capaz de articular saúde, meio ambiente, economia e cultura em soluções públicas duradouras.


