O conhecimento de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais sobre como plantar, cultivar e se alimentar tem orientado, na prática, políticas públicas de alimentação em diferentes cidades brasileiras. Na Estratégia Alimenta Cidades, coordenada pelo Ministério [...]
ESCRITO POR COMIDA DO AMANHÃ
em 29/04/2026
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O conhecimento de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais sobre como plantar, cultivar e se alimentar tem orientado, na prática, políticas públicas de alimentação em diferentes cidades brasileiras. Na Estratégia Alimenta Cidades, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), esses saberes são incorporados a ações que conectam produção, acesso e consumo de alimentos às realidades dos territórios urbanos, especialmente em áreas mais vulneráveis.
Esse processo ganha concretude nas rotas de implementação municipal, instrumento por meio do qual cada cidade define e executa suas próprias ações no âmbito da Estratégia. Como parceiro implementador, o Instituto Comida do Amanhã apoia tecnicamente 84 municípios contemplados pelas Portarias MDS nº 1.036/2024 e nº 1.098/2025, acompanhando de perto a construção dessas rotas e sua execução nos territórios.
Em Mauá (SP), no dia 17 de abril, esse processo resultou na inauguração da Horta dos Saberes Ancestrais no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Falchi, uma das ações previstas na rota de implementação municipal da cidade. Resultado da articulação entre as secretarias municipais de Assistência Social e de Segurança Alimentar e Nutricional, com participação da comunidade local e apoio da Secretaria de Serviços Urbanos, a iniciativa reuniu representantes do poder público e lideranças indígenas em uma cerimônia marcada por rituais conduzidos por Maura Akã Mbareté e Silvia Monica Muiramomi, da etnia Guaianá-Muiramomi. Na ocasião, o secretário de Segurança Alimentar e Nutricional, Hélio Tomaz Rocha, destacou a importância do resgate desses conhecimentos: “É uma obrigação voltarmos à ancestralidade porque, embora o progresso traga coisas boas, também traz desafios. A sabedoria popular pode nos ajudar.”
Voltada às famílias atendidas pelo CRAS, a Horta dos Saberes Ancestrais funciona ao mesmo tempo como espaço de produção de alimentos frescos e ferramenta de educação alimentar e ambiental, com práticas de cultivo orientadas por conhecimentos transmitidos entre gerações e conduzidas com participação ativa de grupos indígenas.
Em Santarém (PA), a rota de implementação avança com a criação de uma Sala de Apoio Técnico à Agricultura Familiar e a Pescadores Artesanais, voltada especialmente para povos tradicionais e com previsão de conclusão em julho de 2026. A iniciativa busca oferecer assistência a cerca de 500 agricultores e pescadores, articulando produção local, mecanização e acesso a políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Para as comunidades ribeirinhas e indígenas da região, a ação vai além do suporte técnico e reconhece práticas de manejo da terra, das águas e dos alimentos que fazem parte do cotidiano desses territórios.

Caderno de Experiências: cidades que inspiram políticas alimentares inovadoras
As experiências de Mauá (SP) e Santarém (PA) dialogam com um esforço mais amplo de sistematização de políticas alimentares urbanas que se consolidou com o lançamento do Caderno de Experiências sobre Políticas Alimentares Urbanas, em 2025. Elaborado pelo MDS em parceria com o Instituto Comida do Amanhã e as cidades contempladas pela Portaria nº 1.036/2024, o Caderno reúne iniciativas de todas as regiões do país com diferentes abordagens para o fortalecimento de sistemas alimentares urbanos, da produção local à governança intersetorial.
A integração entre saúde, território e saberes tradicionais marca a experiência do Distrito Federal, onde a Rede de Hortos Agroflorestais Medicinais Biodinâmicos (RHAMB), desenvolvida em parceria com a Fiocruz Brasília e implantada em Unidades Básicas de Saúde, articula agroecologia, práticas integrativas e conhecimentos tradicionais em territórios urbanos. Criada em 2017 em uma UBS do Lago Norte, a rede se destaca pelo uso e preservação de sementes crioulas e conta hoje com 32 hortos e mais de 12 mil metros quadrados de áreas degradadas recuperadas.
A valorização de práticas produtivas enraizadas na cultura local é o eixo central da experiência de Porto Velho (RO), onde a Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Semagric) articulou formações, infraestrutura e acesso a mercados institucionais para fortalecer a mandiocultura entre agricultores familiares. A parceria com o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o PNAE ampliou as possibilidades de comercialização da farinha artesanal, fortalecendo circuitos locais de produção e consumo.
Para agricultoras como Raimunda Luísa Nunes Moreira, esse trabalho tem um significado que vai além da produção: “Para mim, é muito importante, porque é uma tradição que vem desde quando a gente vivia à beira do rio, como ribeirinhos. Eu procuro não deixar isso se perder. O plantio da mandioca e a produção da farinha artesanal são um legado da nossa família, que veio da minha mãe e que eu sigo passando adiante.”
Já a convergência entre políticas ambientais e alimentares aparece em São Bernardo do Campo (SP), onde sistemas agroflorestais foram implantados em três aldeias da Terra Indígena Tenondé Porã. A iniciativa, conduzida pela Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Proteção Animal com apoio estadual, combina culturas agrícolas com espécies nativas, promovendo recuperação ambiental e produção contínua de alimentos. Com oficinas práticas e ações de formação integradas ao processo, o projeto assegura que o conhecimento permaneça nos territórios e fortaleça a autonomia das comunidades Guarani Mbya envolvidas.
Outras iniciativas que ampliam esse panorama podem ser conhecidas no Caderno de Experiências sobre Políticas Alimentares Urbanas.
O papel do Instituto Comida do Amanhã
O Instituto Comida do Amanhã atua como parceiro implementador da Estratégia Alimenta Cidades em 84 municípios, sendo 60 do primeiro ciclo, contemplados pela Portaria MDS nº 1.036/2024, e 24 incorporados na fase de ampliação, pela Portaria MDS nº 1.098/2025. O principal objetivo da parceria é acompanhar a construção de soluções adaptadas às necessidades de cada território, contribuindo com análises técnicas, produção de conhecimento e articulação com gestões locais, a partir de um olhar sistêmico sobre a alimentação urbana que considera fatores sociais, ambientais, econômicos e culturais que condicionam o acesso à alimentação adequada.









